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Desconectar para reconectar: saúde mental na era digital Por Vitor Mêreggalli, psicanalista

Vitor Mêreggalli – Foto Leandro Araújo

Hoje vivemos um paradoxo: nunca tivemos acesso a tanta informação e nunca nos sentimos tão vazios cognitivamente. A hiperconectividade, imposta pelas redes sociais e pela tecnologia digital remodela silenciosamente a arquitetura do cérebro e a qualidade de nossos pensamentos.

O neurocientista Nicholas Carr, em The Shallows: What the Internet Is Doing to Our Brains, demonstrou que o uso intensivo das redes sociais altera os circuitos neurais responsáveis pela leitura profunda, pela concentração e pela reflexão. Nosso cérebro, “altamente plástico”, adapta-se ao ambiente que habita, e quando esse ambiente é fragmentado, superficial e repleto de estímulos instantâneos, as sinapses que sustentam o pensamento complexo enfraquecem por desuso.

Do ponto de vista psicanalítico, o que está em jogo vai além da neurologia. O excesso de estímulos digitais funciona como uma defesa maníaca contra o silêncio interior — aquele espaço necessário para que o sujeito se encontre consigo mesmo, elabore conflitos e produza sentido. Quando preenchemos cada intervalo com uma rolagem de feed, negamos ao psiquismo o tempo de que ele precisa para processar experiências e consolidar a subjetividade.

As consequências aparecem no cotidiano clínico: dificuldade de sustentar uma linha de raciocínio, intolerância à frustração, empobrecimento da vida imaginativa e uma sensação difusa de vazio que a próxima notificação nunca consegue preencher. A criatividade, que exige ociosidade, associação livre e tolerância ao “não saber”, vai se tornando uma habilidade rara.

Dar um passo atrás não é rejeição ingênua da tecnologia. É recuperar a agência sobre a própria atenção. Por isso, períodos de desconexão intencional, leitura de textos longos, conversas sem telas, momentos de ócio e, como se diz na Itália, “il dolce far niente” (o doce “não fazer nada” e ficar contemplando), são essenciais.

Momentos não produtivos são, na verdade, atos de resistência e de cuidado com a saúde mental. As perguntas que cada um precisa fazer a si mesmo são diretas: quem está no controle? Você usa a tecnologia ou ela usa você?

Divulgação Sabe Caxias – multimídias – Desde 2010 

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