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A dor moral dos atletas da seleção brasileira e a dor moral da população não são iguais

O futebol maravilha do Garrincha, do Pelé, do Tostão, do Rivelino, não vai voltar. É passado. Não se joga futebol nas ruas do país com duas pedras ou sandálias usadas como goleiras. Poucos querem ser atletas de futebol nas categorias de base dos clubes de suas cidades. A maioria dos jovens das favelas nacionais que não se enquadra nos planos voluntários de recuperação é cooptada pelo tráfico, caminho para muitos inevitável e mais rápido para atingir objetivos materiais de sobrevivência.

Este texto poderia ter sido escrito em qualquer tempo da história do nosso futebol. Torcemos, como brasileiros, pela ilusão da gambiarra, que, em algum momento, poderia dar certo, contra a frieza e o planejamento mecânico dos europeus.

Mesmo tendo um carismático e esforçado treinador europeu, Ancelotti não conseguiu superar a falta de identidade dos atletas do Brasil. A incompetência improvisada em errar pênaltis, perder gols na cara do goleiro e tomar dois gols previsíveis do gênio adversário nem se compara, em termos de vontade e humildade, à luta de Cabo Verde contra a Argentina.

Os “heróis do penta”, Cafu, Rivaldo e Nazário, em suas tribunas de honra, demonstraram que o Brasil é um detalhe para seus negócios. Não cantaram o hino com todo mundo; a TV mostrou-os calados.

Não foram os erros que levaram o Brasil a mais uma eliminação na Copa do Mundo; foi a mania dos brasileiros de acreditar que ilusão ganha jogo.

A tristeza e o sofrimento moral de jovens que gostariam de acreditar na vitória do seu país hoje, no sucesso de um trabalho em equipe e no exemplo da superação pela vontade, pela inteligência e pelo trabalho caem de joelhos, trazendo a lição amarga de que esperanças ilusórias não são práticas, não trazem resultados.

 

A presença do Neymar na Copa do Mundo de 2026 foi um prêmio de despedida para o atleta que abandonou o futebol faz tempo.

Há, porém, uma sensível diferença na derrota moral dos milionários atletas do Brasil, ao contrário do velho Garrincha do passado. Vão chorar em suas mansões fora do Brasil, ilhas isoladas de riquezas, em seus castelos. Vão se esconder fora do Brasil por um tempo, em seus carrões, e, depois da Copa, a maioria nem vem ao Brasil, país de origem. Vida que segue.

Grande parte dos brasileiros, porém, em um país que tem uma concentração de renda ainda elevada, dificuldades sanitárias, problemas de segurança e polarização política, chora e sofre na pobreza ou na luta diária, como quem perde uma guerra. Não é.

A Copa do Mundo é um evento trilionário, e a CBF, Confederação Brasileira de Futebol, é uma empresa privada que lucra bastante com o negócio. Ancelotti, para perder pela primeira vez na história do futebol brasileiro nas oitavas de final, fechou com o cachê de R$ 5 milhões mensais. O vendedor de camisetas falsas da seleção brasileira, que tenta se superar todos os dias nas esquinas do país, talvez não tenha R$ 5,00 para voltar para casa e talvez durma embaixo de uma marquise qualquer. Deve, talvez, chorar pelo país com a lágrima de um inocente alienado.

A dor moral de uns não é igual à de tantos outros. Portanto, é só um esporte. Ninguém morreu. Não sofra. O Brasil está fora da Copa. Torcemos, perdemos. Vida que segue.

 

Divulgação Sabe Caxias:

 

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