O Julgamento – por Miguel Brambilla

Cícero denuncia Catilina Por John Leech, 1850, na: The Comic History of Rome, de Gilbert Abbott A Beckett

Era um dia comum, rotina, as pessoas acordavam sem muita esperança por que a violência rondava naturalmente suas vidas. Não se sabia quanto tempo se permaneceria vivo. Cada dia era uma batalha e por isso as esperanças eram poucas. Quem terminava o dia era um sobrevivente. Nos castelos e nos acampamentos militares, a segurança também era uma ilusão. Nem mesmo os reis estavam seguros, imperadores, nobres, comerciantes. Todos cercados por traidores e bajuladores, viviam em busca de algo. Poucos sabiam o que realmente. Talvez nenhum.

Em qual época? Qualquer uma. Diga-se em uma era medieval, com os abusos da dita “Santa Inquisição”, das Cruzadas, da Jihad Islâmica que permanece. E o que importa? Cada um está buscando o seu próprio prazer pessoal. A coletividade se reúne em torno de interesses canibais de grupo para grupo e se acontece a divisão, acontece o canibalismo autofágico. Partidos, bandos, tribos, centúrias, reinados, sempre foram assim. Quanto se evoluiu? Pouco mesmo. Mas se evoluiu. Existe lucidez sim e nem tudo está perdido.

Sob pressão porém, hoje em dia, como todos tem opinião para tudo, nem se lê mais com continuidade, não se formam opiniões profundas e no mar de superficialismo e lavagens cerebrais, ainda se busca martirizar os culpados ou inocentes, num sentimento de melancolia que projeta e justifica falhas pessoais de caráter, mazelas ocultas, distorções, rancores e ódios.

Quem vai julgar o oculto de cada um? Quem vai julgar senão Aquele que Criou e pode agir na direção da destruição caso queira revogar a Própria Misericórdia Infinita?

Somos crianças brincando com a verdade eterna, acreditando ainda no egocentrismo do intelecto inflamado e do caráter impune das ações que se livram dos acordos e conchavos estatais e legislativos criados por poderosos e distorcidos em seu favor.

Crianças inventam regras do jogo infantil conforme suas conveniências, conforme o ego infantil e não trabalhado, não tratado por princípios e valores, tornam-se adultos as vezes poderosos capazes de fazerem o mesmo nas instâncias de transformação social que ocupam.  Na pequena instância, no microcosmo de nossas vidas, também somos assim. Crianças inventando regras no casamento, no trabalho, nos grupos que frequentamos, para justificar nossas culpas ocultas ou reveladas e distorcer a visão do outro sobre nós, sem que isso afete diretamente nossa própria essência, caso seja eficaz.

Perigoso é o psicopata em qualquer instância de sua vida, por que ao manipular mentes e conceitos e chamar isso de política, não mede escrúpulos. Então, o julgamento poderia ser em qualquer ponto da história, sendo que as ações seguem sendo primitivas, frutos de uma sociedade egoísta e sem amor coletivo.

E mesmo assim, aqui inseridos estão os julgados e julgadores, em papéis que se invertem o tempo todo. Como um jogo de futebol, como uma fase inflamada e passional do sentimento e pensamento humanos, como um grito de sangue no Coliseu, em uma batalha campal, em uma orgia, em uma invasão de privacidade, em um espelho quebrado.

A coletividade vai estar presa sempre à sua ação, à sua omissão, à sua compreensão, à sua razão, à sua paciência. Mas o que não se torna fácil de acontecer com a pressa imediatista das ações ansiosas do tempo presente, vai entrando nas páginas da história, como um livro de leitura lenta, onde muito além da luz digital, das tecnologias modernas, da memória astral das coisas e dos fatos, tem a interpretação do tempo e da maturação das coisas e dos seres.

Julgar e não julgar qual é o valor ético? Serve para uma lei que foi criada por ele próprio? É possível transgredir questões subjetivas da moral e do valor invisível, sem considerar as questões religiosas, o criacionismo?

Sempre se falou em “juízo final” e se valem os seres desta expectativas, nem tão claras sobre si próprios, na aposta sobre o tempo, sem uma compreensão mais clara sobre as leis de causa e efeito sobre si mesmo. Somos resultados de todos os dias, e não há no Universo alguém que esteja livre desta imposição da Lei Divina, apesar de sua compreensão limitada, passional ou da própria negação sobre as regras da criação.

Nem mesmo a razão avançada e inflamada de cultura poderá compreender aquilo que não está associado ao verdadeiro amor e a renúncia das paixões primitivas. O homem comum precisa andar passo a passo na estrada da evolução em busca da verdadeira humanização de seus reais valores. Será preciso encontrar em si mesmo as melhores fórmulas de contato com a própria consciência para tentar ir além do simples desejo de conquistar e “se safar” da lei humana que cria e manipula com a força que tem sobre seus grupos de influência, acreditando que se imortalizará também na carne, sendo que só o espirito é eterno e tudo terá que ser abandonado mais cedo  ou mais tarde, ficando somente o subjetivo, a memória do tempo, e o espírito terá que soprar em outros ares, sobre a consciência de si mesmo e com o peso em seus ombros de suas ações conscientes.

Julgar é preciso. É preciso ordem. É preciso avanço. A perfeição está no infinito recomeço das eras. Não há ser sobre a Terra ou no Universo que esteja livre de qualquer tipo de condenação, reprimenda, correção e exemplo. Por mais forte que seja, até o líder das massas terá a sua hora de prestação de contas, por que infeliz daquele que se crê livre do resultado de suas próprias obras.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *