Psicopatas – por Miguel Brambilla

macaco rindoTudo são teses, apenas teses. Ciência é fato e comprovação. São muitos os momentos porém em que a vida se supera a arte, no sentido das psicopatias. Por isso uma pequena história.

“…o chão de repente sumiu sob os seus pés, aquela fração de segundo entre a segurança e a incerteza de como seria o impacto de seus mais de cem quilos com a calçada. O limo das pedras úmidas, lisas como sabão foi a causa. Esperava neste exato momento um socorro qualquer. Uma menina de 07 anos, teve a noção exata da preocupação. –Pai, tu está bem? Ao lado uma senhora de quase 73 anos, que caiu na gargalhada. Uma risada alta, profunda, incomum, estridente e certamente estranha. Parecia ressaltar um mórbido prazer na tragédia cômica de um tombo que poderia ser uma tragédia. Acidentes bem menores, causam paralisias, fraturas e inflamações por longo tempo. A senhora continuou sua gargalhada profunda por cerca de três minutos, certamente degustando a imagem do cômico que reverberava em sua memória, sem em nenhum momento usar qualquer expressão de solidariedade. Em sua mente o que passaria? Talvez a procura do julgamento contra o acidentado, que certamente caíra por sua estupidez, desengonço, como é comum se dizer naquela família “bocabertice”. As dores do homem de meia idade, com quase meio século de vida, ensinaram duas coisas. Uma criança de 07 anos pode ser mais solidária que um idoso de 73. O mau exemplo da vó que ensina a criança a rir de um acidente antes do socorro ficou como troco da situação. Conclusão da história: o desamor gera o ódio”.

É possível ir além nesta questão de pura psicopatia. Aquela gargalhada no ar não trazia alegria, trazia ironia, cinismo e um mórbido prazer em desfrutar do ridículo alheio. Uma pequena escala do egoísmo mundial que se acirra no planeta. O que pensou a menina ao ver a sua própria avô gargalhar sonoramente de seu pai? Repetiria aquela moça o mesmo tipo de comportamento na escola, quando alguma coleguinha caísse? Primeiro rir, sonoramente rir, se divertir com a desgraça alheia, depois quem sabe um gesto de solidariedade? Não foi o caso da história citada. Solidariedade não houve.

O espírito humano tem mais labirintos e profundidades que é possível a realidade aparente conhecer. A questão talvez não seja essa. Exemplos como esse são muitos, todos os dias. Quando alguém fura a fila no banco, quando alguém não dá espaço no trânsito, quando alguém não se levanta para fazer gentileza ao próximo, quando se omite diante da miséria mundial, simplesmente virando a página do jornal ou trocando o canal, quando as pessoas se fixam apenas nas próprias mazelas instintivas, rir ou chorar, ter prazer ou dor e o resto como uma periferia útil, o mundo cai na psicopatia.

Esta psicopatia coletiviza-se nas noticias do estado islâmico, na divulgação da corrupção como banalidade ou a sensação de impunidade gerada, na violência generalizada.

No fundo, muitos estão rindo, sonoramente rindo, como exemplo para os mais jovens. Rindo das desgraças alheias com o coração cheio de ódio e rancor contra a vida e contra todos. Rindo, até que a desgraça alcance sua própria porta. Então, o psicopata, homem ou mulher, passa a rir sonoramente da própria solidão e desgraça, tentando fazer todos acreditarem que é realmente feliz.

Que cada um se meça com as próprias réguas.

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