O rei dos pigmeus – Por Duni Brambilla

Capa do CD da Banda Exilados

Capa do CD da Banda Exilados

Não sei como minha experiência pode ajudar as pessoas, se não ajudar há mim mesmo. Tenho um vigor para o exercício, mas em vários momentos o foco mental parece escapar de forma tão vigorosa, que minha mente pula do estágio de concentração total para totalmente dispersivo, sem saber o que fazer, por onde começar o planejamento, por onde agir. Uma descrença absoluta toma conta de minha alma, dores no corpo e a sensação de que mergulho nos mais profundos infernos de minha alma, como se na tristeza meu coração novamente nascesse do nada, do esquecimento profundo de eras antigas, onde não quero mais mergulhar, onde não quero mais suportar, onde quero ser outra pessoa, livre e primitivo, apaixonado e passional, forte e irresponsável.

Grilhões de fogo e correntes incandescentes nos pés e tornozelos se enroscam, e morro totalmente nu numa parede fria e limosa, num porão mofado. Ratos comem as pontas dos meus dedos, minha barba e meus cabelos crescem, minha alma magra de generosidade em um corpo esquelético e morto, ainda respira o ar fétido da carniça de outros prisioneiros mortos. O sistema me venceu, cancioneiro louco e sem respeito as donzelas assanhadas e senhoras infelizes em seus matrimônios, mães de filhos burgueses e maridos capitalistas e nobres cheios de amor pelo ouro, mais do que pelas tenras carnes das suas dedicadas mulheres, se entregam a mim como o poeta que seduz e transforma em tédio o lixo do sucesso em ludibriar corações. Este passado derrama-se sobre minha alma num inconsciente louco como o do Chapeleiro Louco de Alice no País das Maravilhas, quando de forma psicodélica sinto a obsessão extravasar e arrancar as membranas do esquecimento das memórias do meu subconsciente, onde minha matéria atual não estava e lá só estava minha consciência mais atrasada, mais perdida, mais pobre do que hoje.

O pior dos efeitos é a ressaca moral de todas elas, onde o santo e o louco convivem. Um olhando para o céu, o outro olhando para os prédios derretendo ao seu redor, por que não importa realmente a realidade fixa em uma rotina repetitiva, desgastando elementos num tempo lento e infindável, na sensação morta de uma imortalidade viva e de uma eternidade que nunca muda o presente, sempre esperando a última parcela da prestação, um novo negócio, o aumento de salário, os filhos crescerem, meus olhos ficarem velhos e cansados, meus cabelos brancos e minha barriga flácida, e sem razão nenhuma, voltar agora para o amanhecer de onde recebo o chimarrão, como uma forma de acordar novamente para a rotina da casa. A peça perfeita no jogo perfeito do xadrez social. Toda minha música não serve para nada, a não ser para reclamar de mim mesmo e de meu coração imoral.

Acordei com a sensação de medo. Traição e indecisão na alma. Carne crua na água. Um alguém que não conheço. Um muro na rua, um corredor estreito. Uma pequena casa. Irmãs gêmeas. Meu amor não era meu. A solidão de outros dias. Mesmo quando se dorme aparentemente em paz, se prende a alma nos infernos que ainda tempestuam em nós.

Não sou nada. Ninguém mais me aclama. Meus ouros já se foram. Minhas coroas roubadas e derretidas como a do Hobbit, minha magia está coagulada. Mas eu ainda sinto amor. Pequenos gestos em plantar uma flor, em ser gentil, em persistir numa nova sensação de vida, numa estrela decaída há milhares de anos, de onde eu aqui fiquei abandonado e nunca mais consegui voltar para alcançar aqueles velhos irmãos anjos, que só com sua luz me fazem sentir o ciúmes de um diabo abandonado e recalcado, rangendo dentes desgastados em roer ossos de mortos animais, de cadáveres astrais, vampirizados em cemitérios descuidados, sem oração, sem coração, sem abraço.

Amigos espirituais salvem minha alma de mim mesmo. Quero trabalhar o máximo possível, como se pudesse romper sem a permissão do espaço, da criação, as cadeias de DNA que me prendem nesta melancólica realidade, como um contrato rompido pelo meio, já que preciso cumprir a palavra de esperar e agir e resolver e vislumbrar o débito de ontem, de anteontem, de antes de todas as eras, como o rebelde que precisa repetir a série, se humilhar diante dos colegas pelo seu tamanho físico e seu cérebro pequeno, incapaz de conduzir há si mesmo, de forma pacífica e submissa ao cadafalso, onde o sangue vai jorrar do meu pescoço aberto, para que os abutres bebam em tigelas a beleza da minha nutrição.

Pensamos que somos fortes nos augúrios da inspiração, mas ninguém vai organizar nossa rotina, nossos passos, a culpa de produzir algo de útil e inútil na sensação de que é preciso aumentar a coleção de coisas para sentir segurança, quando ninguém compreende a vontade que tenho de ter esperança. Hoje preciso desabafar o segredo de uma nova aliança, na sensação de que o cavaleiro nunca se cansa na cruzada do seu  Déjà vu, quando não temos mais fórmulas para se concentrar no destino, apenas lamentar não ter contido o peso da tentação sobre a vaidade peçonhenta que torna o coração enrugado, sem calma e sem paciência, quando deveríamos compreender que humildade é luz, é bálsamo, é benção.

Quero abrir as portas do céu, mas a minha chave está precisando ser recadastrada, minha mente reconfigurada, meu sistema está com vírus e está entrando em colapso minha mente, com pequenos bugs, quando preciso ser exatamente dinâmico, focado, inteligente e forte, andando e desandando a ação, aumentando o ritmo e a velocidade, numa forma de expor minha alma para fora de mim mesmo, quando há um turbilhão de coisas sem sentido que precisam ser ditas e exploradas e faladas e cantadas e depois decantadas para o esgoto do nada, novamente soterradas no íntimo da contradição de minha alma.

Que beleza de inspiração temos, quando as expressões ficam mais claras. Quando entendemos o significado de cada palavra. Quando cada fala se torna a beleza rara de uma cigarra, de uma estrada em condição elevada, florida e pavimentada, com arco-íris no final, com potes de mel, ouro e a certeza do significado racional de que podemos ou não podemos sentir aquilo que é preciso sentir. A energia de uma “multidão de testemunhas”, o conhecimento do Evangelho, o que gostaríamos de ter no homem novo ou velho. Uma certeza de que tudo é realmente sério. A felicidade de um necrotério. Enquanto esperamos qualquer coisa e os dias passam ansiosos para o leito de morte, para o último adeus, para que o baú de frustrações seja então fechado e no balanço geral você acabe se culpando e se chicoteando por não ter lutado o suficiente, por não ter dado 100% de sua mente consciente e ter que começar a corrida novamente, enquanto que todos aqueles que estão na sua frente, já se foram para outros sinais, outros semáforos, outras turmas, outros canais. Mas você que mudou a direção de si mesmo, sem parar porém, desenvolvendo músculos onde talvez o sistema não precise, olhando de ângulos que ninguém vê, só você, e por isso não vai saber explicar, vai esperar o tempo parar e os cavernígenos, os cavernosos, os cavernícolas, qualquer coisa que venha do tempo mais antigo do seu desespero expulso do templo das melhores vibrações, venham te pedir abrigo para depois comerem tuas carnes no repasto da tribo, alimentando corpos de feras e deixando para você a esperança de renascer entre eles, com todos seus instintos primitivos, todo o fel e toda a luxúria no sangue, virando então a mesma fera, usando agora toda sua astúcia contida para ser melhor, ou igual, ou pior, devorando e se tornando rei de pigmeus.

Você verá outros reis, você se sentirá grande como eles, mas será pequeno, com a fidelidade canina de estúpidos e idiotas sub desenvolvidos. Você é um arrogante, um bossal e quanto mais despreza, mais se prende aos submundos da escuridão pela falta de misericórdia, de caridade, a virtude que te falta, por que já dominas todas as técnicas científicas e tencológicas, mas não domina o próprio coração.

Acabou a inspiração. Vou dormir e chorar no sonho. Vou começar de novo. Eu não tenho saída. Só posso viver. Então, vou plantar flores no jardim, uma árvore que cresça para além de mim, vou trabalhar ao máximo, vou ganhar dinheiro. Não me elogie mais. Sou um anônimo igual aos outros todos. Eu estou aqui agora, num lamento rebelde que gostaria de transformar em oração, mas não consigo, sinto-me um velho primitivo em um corpo são. Então… me deixe acordado e dormindo ao mesmo tempo, por que meu metabolismo lento já não consegue mais pensar na fuga, ando então derrotado e cansado, para novamente nascer, de onde nunca estive, nem você. Vamos ver. Somos reis de pigmeus, achando que somos grandes almas caídas. E assim… segue a vida…coloco a mão no peito e deixo o sangue quente umedecer minhas mãos, jorrando abundante da ferida… só existem prisões… não existem dias…e então, saio do inferno e não sei para onde ir….entrou vento no porão… transformei o mofo…. meus ossos viraram pó… depois de mil anos na estante nas páginas de um livro esquecido, profetizei o que ainda não cumpri… escrevi o que ainda não sei… senti o que ainda não consigo explicar e assim renasci como um rechonchudo bebê de barbas brancas, cabelos longos e velhas rugas em meu coração… o leite materno era o vinho de velhas noites na taberna e o desejo calado era o acalento das almas tão caídas quanto eu…mariposas perdidas… prostitutas…velhas putas que deixaram suas carnes apodrecerem ao longo de velhas noites de lobisomen.

Morcego negro, tua alma é tão perdida quanto a da vespa, do escorpião, da cascavel, da naja esquecida. Almas peçonhentas fazem parte da escala evolutiva. Mas por que estamos no submundo da magia criativa, estamos tentando apenas desenvolver a penca de interesses imediatos que temos, mesmo que já tenhamos morrido mil vezes e renascido mais de um milhão, por que em corpos e em coração, falta vontade, falta ação, falta decisão, falta de vibração.

Em uma noite fria, sobre o bafo de vacas, jumentos e cães, um pensamento como semente foi lançado no Universo que um dia já dominei. Então, me senti tão velho e cansado que me deitei aos seus pés, querendo segui-lo e sonhando em nunca mais me apegar ao poder. Mas não é o poder, é o meu querer e percebi que a natureza as vezes pode ser tão lenta que vai matar mil vezes você, na mesma experiência, até que você entenda que ficar para trás para esperar os outros é só amor, é só amor que você ainda não tem mas precisa ter. Por que mesmo que tenha todas as belezas da mente, não pode fazer nada florescer sem o dom da misericórdia, a antítese da discórdia. Está tudo em você. É preciso entender. Usar a massa bruta para crer. Criar algo que não existe é um desejo de eternizar a você. Irresponsável, gênio e louco, sem a mesma disciplina da máquina de fazer troco, siga no caminho novo, por que é assim que se fazem os sinais da evolução. Minha alma gostaria de deitar em silêncio no meio da canção, mas a vida me pede ação, motivação, realização, emoção.

Um sonho é só uma mentalização…um final sem final…do tédio a reação…

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