Especial: Ronco e apneia do sono podem aumentar os riscos de problemas nos sistemas cardiovascular e metabólico do paciente

Natalia Guerra _ Crédito Edson Pereira (1)Cirurgiã-dentista caxiense, especialista em odontologia do sono,
Natalia Guerra alerta sobre os malefícios de uma noite mal dormida

 

Mais do que uma boa noite de sono, um descanso adequado ajuda a melhorar seu dia-a-dia e a prevenir doenças no futuro. Insônia, síndrome das pernas inquietas, sonambulismo, bruxismo, mas, principalmente, ronco e apneia são alguns dos distúrbios de sono que mais afetam a população mundial e que acabam prejudicando a hora de dormir.
De acordo com a cirurgiã-dentista caxiense Natalia Guerra, especialista em odontologia do sono, 76% dos brasileiros queixam-se das condições de seus descansos. “As consequências que estes problemas podem trazer para os sistemas cardiovascular e metabólico das pessoas são graves. Doenças como diabetes, infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral têm maior risco de acontecer em pacientes que não dormem bem, em pessoas que sofrem com ronco e/ou apneia. Um recente estudo publicado pelo Journal of Clinical Sleep Medicine mostrou que estes efeitos indesejáveis afetam o indivíduo e o companheiro que divide a cama com ele em intensidade semelhante no que se refere à qualidade de vida”, explica Natalia, que trata há mais de sete anos pacientes que sofrem com distúrbios do sono.

 

Qual a diferença entre ronco e apneia?

O ronco acontece quando o ar encontra dificuldade em transitar pelas vias respiratórias superiores, devido a um estreitamento nessa região. Dessa forma, os tecidos flácidos dessa zona vibram caracterizando o ruído do ronco. Já a apneia é mais grave, porque se define como uma pausa na respiração, a partir de 10 segundos. Essa situação acontece quando o ar não consegue passar pelas gargantas e, consequentemente, não chega aos pulmões, devido à obstrução total desse espaço.

O ronco sempre está ligado a apneia do sono?

O ronco pode acontecer sem a presença de apneia, o que chamamos de ronco primário, e é observado em 5% dos casos. Porém, quando o paciente faz apneia, normalmente, o ronco estará presente, salvo algumas exceções.

Há alguns fatores que predispõem esses transtornos?

Sim, cito alguns deles: obesidade, queixo retraído, flacidez tecidual e muscular na região da orofaringe, refluxo gastresofágico, uso de alguns medicamentos para dormir, excesso de alimentação à noite e tabagismo.


Que prejuízos esses problemas podem causar a nossa saúde?

Muitos, principalmente, no sistema cardiovascular e metabólico. A relação entre paciente apneicos e cardíacos é muito grande. Da mesma forma, a predisposição desses pacientes a apresentarem diabetes aumenta também.

 

É verdade que quando ingerido bebida alcoólica as pessoas tendem a roncar?

Sim, é verdade. O álcool promove um relaxamento muscular maior, fazendo com que a língua, que é composta por vários músculos, ocupe uma posição mais posterior, diminuindo o espaço para a passagem do ar. Assim, a predisposição para acontecer o ruído do ronco aumenta consideravelmente.

 

Na maioria dos casos, qual é o sexo predominante e qual a faixa etária das pessoas que sofrem com esses distúrbios?

Os homens roncam mais que as mulheres, mas essa proporção diminui com o avanço da idade. Antes dos 40 anos, 30% dos homens roncam contra apenas 10% das mulheres. Após os 50 anos, essa relação vai se estreitando até se igualar entre homens e mulheres com mais de 60 anos.
Como é feito o diagnóstico dos problemas?

O diagnóstico é feito por meio de uma consulta com um médico especialista em medicina do sono, que, normalmente, são neurologistas,otorrinolaringologistas e pneumologistas capacitados. Ele irá solicitar um exame inicial, chamado de polissonografia. Tal exame irá avaliar a qualidade do sono do paciente e,  posteriormente, o tratamento ideal será indicado.
Como é realizado o tratamento deles? Há cura?

Não, ronco e apneia não têm cura e eles evoluem com a idade. Atualmente, os tratamentos reconhecidos como principais são os aparelhos intra-orais e/ou aparelhos de pressão positiva, chamados CPAP. Exercícios de reforço muscular para os tecidos da orofaringe podem ser indicados como tratamento coadjuvante, dependendo do caso. Para pacientes obesos ou acima do peso tratamentos de emagrecimento são imprescindíveis.

O tratamento será sempre feito por médicos e dentistas?   
Não. Os principais tratamentos são feitos por dentistas, médicos e fisioterapeutas. O médico faz a indicação do tipo de tratamento ideal para cada paciente. Se o CPAP for a escolha, um fisioterapeuta capacitado será responsável pela adaptação do método. Se o tratamento for o aparelho intra-oral, o dentista vai dar seguimento com a construção e adaptação. O fortalecimento da musculatura da garganta e faringe, considerado tratamento coadjuvante, é feito por fonoaudiólogos. É importante ressaltar que o tratamento ideal é aquele que o paciente melhor consegue se adaptar.

Os distúrbios do sono sempre puderam ser tratados pela odontologia?

Os primeiros tratamentos com uso de aparelhos intra-orais, chamados retentores linguais, foram relatados em 1934. Hoje eles estão em desuso. Na década de 1980 surgiram os aparelhos de avanço mandibular, que, atualmente, são os mais indicados para tratar esses problemas.


Todo cirurgião-dentista é habilitado para o tratamento?

Não, mas é possível se habilitar por meio de cursos em odontologia do sono. Essa área da odontologia ainda não é incluída no currículo da graduação.

Você sabe se o governo oferece tratamento gratuito para ronco e apneia?

Em algumas localidades não, como é o caso de Caxias do Sul. Porém, no Rio Grande do Sul o Laboratório do Sono do Serviço de Pneumologia do Hospital De Clínicas, em Porto Alegre, foi um dos pioneiros a funcionar em parceria com o Sistema Único de Saúde (SUS) na elaboração de diagnósticos. Atendimentos são agendados apenas para a realização da polissonografia. O SUS não fornece nenhum tipo de tratamento para esses distúrbios.

SOBRE NATALIA GUERRA    
Apaixonada por artes manuais e ciências médicas, a cirurgiã-dentista caxiense Natalia Guerra é formada em Odontologia pela Universidade Luterana do Brasil. Com clínica no Centro de Caxias do Sul, ela completou em 2015 20 anos de carreira, contabilizando mais de 20 mil procedimentos realizados.
Considerada referência na Serra Gaúcha, a caxiense é pós-graduada em Dentística Restauradora pela Escola de Aperfeiçoamento Profissional da Associação Brasileira de Odontologia e habilitada em laserterapia pela Universidade de São Paulo. Além disso, também é capacitada para tratamento de ronco e apneia do sono, tendo realizado diversos aprimoramentos na área.
Durante sua carreira, além do consultório particular, Natalia também exerceu profissionalmente em dois sindicatos da cidade (Bancários e Fiação e Tecelagem).

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