Cristais e diamantes – por Miguel Brambilla

cristais e diamantesÉ uma e quarenta da manhã de sexta-feira. Tenho a impressão de que nada está em minha mente e de que não vou conseguir escrever nada, mas as palavras começam há surgir como uma golfada de vômito em meu estômago vazio, após uma noite de bebedeira. Doem na base do tórax, convulsionam e acabam saindo pela minha boca numa grande angústia e numa sensação de que algo não vai muito bem.  Mas eu acho que parece estar tudo bem, estou colocando a situação sobre controle. Vícios controlados, vontade forte, diálogo, tom de voz moderado e determinação. Tenho feito contatos, parcerias, criado ideias. O exercício físico faz parte deste movimento constante em busca de um direcionamento para o fluxo de tempo que corre sem parar, mas que sei, está em círculos, dando voltas em si mesmo e em torno do grande astro rei, o Rá de todos os tempos. O homem antigo do passado, exilado, primitivo, sofisticado, pervertido e caído de um céu de estrelas onde todas as coisas aconteciam como fruto de grandes conspirações e um instinto animal devorador que normalmente enceguecia a razão.

Não sei por que o passado parece tão forte em nossos corações, ou talvez seja apenas no meu. Sinto que minha mente segura um fluxo de informações que tentam romper a barreira como um se houvesse um furo em uma grande represa. Este véu misericordioso do esquecimento me faz acomodar na linha de baixo da evolução. Sinto prazer em esmagar caramujos e ouvir o craque das cascas duras. São lesmas nojentas que comem as minhas folhas e deixam rastros em minhas paredes. As vezes invadem a casa inoportunamente. Mas são obras do Criador, vão evoluir e eu não respeito, não conseguirei criar uma vida jamais.

Tenho cães, na verdade fêmeas. Elas não sofrem tanto por minha causa. Alimento, dou água, dou autoridade. Não uso violência, mas não ofereço carinho. Minhas árvores estavam secas até ontem, quando chuva e frio voltaram a me lembrar que tenho que resolver as infiltrações ao invés de comprar um novo balde ou ficar brigando com as goteiras ou com quem fez o piso.

Eu não sei por que não sinto vontade de dormir. Preciso de sexo todo o tempo, mas já controlo bem melhor, pensando mesmo, tentando colocar o foco em algo mais produtivo, dividindo conceitos e reflexões e ouvindo opiniões, tentando colocar em prática aquilo que acho realmente justo. Não sou o melhor de todos, mas sou cada dia melhor que fui ontem, pelo menos em algum sentido. Sempre tenho mais informações.

Gostaria de ter fama. Sinto que as pessoas estão me conhecendo pela teimosia que tenho em aparecer. Sou reconhecido ou as pessoas pensam que me reconhecem. Mas e daí? Preciso de dinheiro para pagar as contas. Num relacionamento materialista, o amor é secundário, poder e dinheiro andam juntos. Por isso existem tantas competições nas famílias.

Não há o que fazer sobre isso. É um mundo primitivo, instintivo. Não ouso utilizar o nome do Criador em minhas reflexões mundanas e a única coisa que temo é que o véu se rompa e a represa inunde minha consciência de loucura, desespero e luz. Minha sombra é tão espessa, que a luz coagulada nela só reflete o meu próprio fel. Não me sinto confiável e esse é o meu pior castigo, conviver comigo mesmo.

Por que deveria confessar culpas se sei a direção da eternidade? Por que deveria andar em direções contrárias do progresso espiritual, se já estou com os pés cimentados no cemitério parque, como todo mundo está desde que nasce e ninguém me trará de volta o viço rebelde de uma juventude que se vai com a máquina do tempo?

Homens são máquinas, elas se desgastam, elas se cansam, elas tem vida útil como as coisas. Tenho a certeza de que alguém está ao meu lado estimulando minha inspiração. Sou coagido há escrever. Isso não é luz, é confissão. Palavras surgem aos borbotões, quando gostaria apenas de entender o por que da dificuldade de encontrar a simples iluminação, quando para outros é tão fácil?

Conheço o céu e o inferno, conheço as estrelas e a escuridão, conheço a vida lá fora, o fundo do poço, as ratazanas do porão.

Conheço anjos e demônios, vivi verdades e mentiras, e já não sei por onde recomeçar.

Você também conhece minha pior intimidade, como um cachorro velho, lambendo um osso descarnado.

Nada pode me deter quando coleciono rugas e branqueiam meus cabelos.

Sou seu amor, sou sua prisão, sou seu prisioneiro, mas não entendo, simplesmente não entendo o por que de tanta tentação.

A beleza me fascina e a rotina não…

A alegria de uma vida e uma decepção…

Triste convivência, louca solidão…

Você ou eu…andando sem parar por ruas desconhecidas, caminhos tão tristes, erros tão vulgares.

Diga por que meu amor…por que somos assim….pois tanto tempo se passou e eu já não tenho quinze anos…Diga por que as estrelas já não cantam para nós, por que os pássaros não nos felicitam mais, por que já não temos tantas flores no jardim?

Um dia, uma pequena libélula esteve perto do meu sonho…e na sua pequena verdade me disse que não tem sonhos impossíveis…

Eu amo você…eu sempre vou te amar…eu não quero estar preso neste corpo sem poder me libertar…e então, faço o contrário…o mantenho cada vez mais vivo…para não ter que voltar…

E assim que me convenço que posso dizer qualquer coisa…No seu espaço onde não entro, existem mais sombras do que força….Por que somos tão ocultos? Por que somos tão frágeis? Como vasos de cristal e não como diamantes…A música é um bálsamo constante.

Boa noite querida…estou indo para você….

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